22 de out de 2013

Residência artística: Muros Territórios Compartilhados (Salvador/BA)

Depoimento

Água Brusca, Cidade Baixa, Forte de Santo Antônio, Forte de Barbalho, Recôncavo, caruru, acaçá, dendê, pólvora, açúcar, marés, saveiro, engenho, Água de Meninos, Buraco do Tatu, veneno, alfaiates, subversivo, tabaco, Ketu, Baia de Todos os Santos, Cachoeira, Cidade Alta, Curuzu, Ubaldo, Dois de Julho, Revolta do Urubu, navalha, mulçumano e Pirajá.

Chuva de palavras com múltiplos significados e diferentes contextos... Uma diversidade próxima a isso representa como me senti ao pisar na feira de São Joaquim.

Sem uma lógica aparente ou imediata, a proposta foi uma vivência de duas semanas para que eu pudesse entrar no ritmo da feira _ transitar, alimentar, dialogar, me perder. Somado a isso, também buscar nas ervas, nos animais, adornos, tecidos, adereços...

Buscar uma possibilidade de cura para meu corpo enfermo, enfermidade que refere-se à condição desse corpo silenciado que perpassa questões contemporâneas, como o medo, o individualismo, o efêmero e a alteridade no âmbito da intimidade.

A feira de São Joaquim está situada na Cidade Baixa, zona portuária de Salvador, importante centro de abastecimento. São aproximadamente quatro ou cinco mil feirantes organizados principalmente num dispositivo orgânico em forma de labirinto. Patrimônio imaterial da humanidade, ela agrega valor simbólico ímpar à “cidade da Bahia” e movimenta significativamente a economia num intenso fluxo de diversas mercadorias e serviços.




No período em que permaneci na feira, reservei para os registros fotográficos as imagens dos feirantes. Uma tentativa de valorizar a representação desses profissionais amigos, conselheiros e entidades que agregam ao território um sentido de pertencimento, de identidade cultural. “Personagens” que são importantes para a vida daquele lugar.



No entanto, estar na feira foi um exercício de a todo instante me colocar em “cheque”, o espaço me provocava constantemente _ tinha a sensação de estar perdido num lugar conhecido. Caminhar pela feira aumentava meu repertório de becos sem saída, dessa sorte me perdia com maior frequência. Isso me colocou num labirinto interior sufocante, angústia semelhante a um choque que reanima um corpo em parada, uma desestabilização reativa, mas necessária para que algum “emplasto” fosse elaborado.

Os materiais pesquisados sobre a feira, como filmes, artigos, conversas com pessoas que conviveram com o mercado foram decisivos para que eu conhecesse um fato que me instigou: um incêndio na antiga feira, cujo nome era Água de Meninos.

Na época existia uma discussão que provavelmente tal tragédia tenha sido provocada. Em minhas andanças e ao acessar o material sobre a feira, sinto que era malquista por alguns no período anterior ao incêndio e de alguma sorte, penso também que esse sentimento ainda hoje paira no ar, foi herdado pelos contemporâneos.

A partir daí o incêndio tornou-se meu fio condutor e também uma linha de pensamento metafórica, em busca de alcançar perguntas que de certa forma trouxessem reflexões. Retornei as caminhadas e os diálogos com esse recorte.

“Incendiaram os engenhos de açúcar. Em 1555, ele incendiou cinco aldeias pelas bandas do Rio Vermelho. Fogo de fornalha... os canaviais haviam sido incendiados. Toca fogo no canavial, trabalho destrutivo das labaredas até alcançar o moinho e queimar o melado. Estandarte... com incêndios em canaviais e estações pesqueiras. Incêndios clareavam vários pontos da cidade. O fogo consumia cerca de 70 sobrados, a maioria na Conceição da Praia, mas também na Piedade nos Barris, na Ajuda, em São Pedro _ provocado pelos vencidos, em desespero e embriaguez, e pelos vencedores, para desentocar inimigos. Soldados rebeldes foram atirados às chamas e também simples moradores... Incendiaram e depredaram tudo. Para que casas ardessem mais facilmente, untaram-nas com azeite. Sebastião fora visto montado a cavalo com uma tocha na mão, pondo em outras casas da armação. República é revolução, é incêndio, é saque... é sabinada”.*

Tencionar tal gesto como fôlego e recuo da significação, no intuito do sentido conter sentidos. Para isso, construí um personagem que fizesse uso das fissuras, brechas e rupturas, que se mostrasse fugidio­­­_ fosse capaz de indagar o silêncio nas ações, interceptá-las pelo silêncio, comunicar-se por silenciar. Tal arquétipo se inscreve no jogo das múltiplas formações discursivas, que constituem as distintas formas de expressão.


*Referências:

OLIVIERI, Silvana. Quando o cinema vira urbanismo: o documentário como ferramenta de abordagem da cidade.Salvador: Edufba, 2011.

ORLANDI, Eni Puccinelli. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. Campinas: Unicamp, 1992.

RISÉRIO, Antônio. Uma história da cidade da Bahia. Versal, 2004.

Filmes:

“Água de Meninos – A Feira do Cinema Novo” (Fabíola Aquino , 52 min)

“Sol sobre a lama” (Alex Viany, 1963, 90 min)

“A grande feira” (Roberto Pires, 1961, 91 min)




Dalton Paula
Tabuleiro
Fotografia
90 x 135 cm
Foto: Bruno Vilela
2013




Dalton Paula
Lata incendiária 1
Fotografia
60 x 80 cm
Foto: Bruno Vilela
2013





Dalton Paula
Lata incendiária 2
Fotografia
90 x 135 cm
Foto: Bruno Vilela
2013






Dalton Paula
Água de meninos
Performance
Vídeo: Bruno Vilela
2013


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