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13 de abr. de 2014

19 de mai. de 2012

O eu é outro: retratos pintados


Escrituras em pedra, pergaminho, imprensa, publicação em livros, internet... saberes que deixaram de existir somente no papel, estão também na tela, no mundo diverso e flutuante das novas tecnologias.

Conhecimento que se transforma, desconstrói, reinventa e que deixa a materialidade física e ganha a virtualidade; conhecimento que muda de lugar, que não é mais de uma única fonte, mas pode ser produzido, alterado por mim ou por você, por qualquer um; conhecimento que outrora podia ser guardado no armário, e que hoje está no mundo, no universo da mobilidade, da profusão, da ubiquidade.

Quantas transformações ocorreram... mas parece que foi ontem! É que apesar do relógio continuar o mesmo, os ponteiros do tempo parecem correr apressadamente, e a cada segundo surgem inovações. Ainda assim, me resta a lembrança de minha relação com o conhecimento enciclopédico, no qual a riqueza e a diversidade do mundo estavam impressos nos volumes da Barsa, ou dos almanaques, como o Lunário Perpétuo. Fontes valiosas não apenas para os estudos, também um caleidoscópio pela qual eu podia ver e conhecer o Outro, outros países, outras culturas, outras vivências e também pude me conhecer, estudando a anatomia e o funcionamento do corpo humano e de minha cultura.

Nessa volta no tempo, meu trabalho é também uma releitura de retratos pintados, técnica tradicional que caiu em desuso, mas que ainda persiste como relicário, como espaço da memória e da subjetividade. Assim, compreendo que sou agente fundamental nessa relação entre o eu e o Outro.

Tão cômodo separar esses dois lugares, instituir esse distanciamento, porém eu não me conheço sem o Outro, eu não sei eu sem o Outro. Como destaca Bakhtin, eu sou inacabado, é o Outro que me completa, que me constitui, pois tudo que me diz respeito a começar pelo meu nome vem de fora, vem da boca dos Outros.

Compreendo que assim como as enciclopédias impressas, também os retratos pintados caíram em desuso, adormeceram no tempo. E ao remexer esse baú de histórias e memórias, me deparo com o sonho, com a imensidão íntima, como relembra Bachelard. Imensidão, que é um mergulho não apenas em mim, mas também no Outro, nos Outros e que pode estar também na casa, na sala ou no quarto, nos cantos e frestas, nos espaços infinitos. 


 Dalton Paula
Retrato Silenciado
28,5 cm (vertical) x 220 cm (horizontal)
Óleo sobre livro
Instalação
Foto: François Calil
2010





Dalton Paula
Retrato Silenciado
Detalhe 1
Óleo sobre livro
Instalação
Foto: François Calil
2010






Dalton Paula
Retrato Silenciado
Detalhe 2
Óleo sobre livro
Instalação
Foto: François Calil
2010


30 de abr. de 2012

Prelúdio


Ouvi muitas vozes e várias orientações (diretas e indiretas), que me conduziram e ainda me guiam nas escolhas dentro do universo artístico. E lembrando os passos dados, relembro também das/os protagonistas que fizeram a história das Artes em Goiás. Estado, lugar que me despertou para essa difícil e conflituosa possibilidade, repleta de segredos e encantos, que deu sentido especial à minha vida.

Posso dizer que sou artista não porque já me considero pronto ou por ter alcançado alguns voos. Sou artista porque estou num estado compulsivo. Não consigo deixar de fazer, de pensar, e de falar sobre arte.

Minha inserção artística se iniciou pelo campo pictórico. As cores me encantavam, me afetam até hoje. Talvez os temas tenham sido apenas pretexto para usar as cores.  E se antes elas apenas “coloriam”, hoje ao serem metaforizadas, deslocadas dão sentido ao trabalho. As cores são conceitos, são ideias que alimentam um pensamento pictórico de símbolos culturais na minha produção.

De onde venho
Tantos e tantas são aqueles/as que em épocas diferentes, e com trabalhos diversos foram e são importantes para mim. Artistas que de alguma forma tornaram meu caminho menos tortuoso, amenizaram os obstáculos, foram valentes.

Isso não significa que outras pedras não precisam ser removidas, porque cada período é como uma encruzilhada, com novos desafios. Mesmo assim, acredito no quanto a memória faz parte do que sou, por isso destaco estas referências.

“Quando não souberes para onde ir, olha para trás e saiba pelo menos de onde vens”. Provérbio africano

Tradição, rupturas, inserção de novos valores e movimentos
Nos anos de 1970, o escultor alemão Gustav Ritter e o pintor italiano Nazareno Confaloni trouxeram para Goiás a experiência das vanguardas artísticas. Seus trabalhos em escultura, pintura e gravura valorizavam o homem e as paisagens locais.

Alguns eventos foram significativos para o despertar das artes no Estado, como a I Bienal de Artes Plásticas de Goiás, que culminou na participação de goianos na XI Bienal Internacional de São Paulo.

Tais iniciativas geraram um ciclo produtivo com diversos “frutos”, como a criação do Museu de Arte de Goiânia, o curso de Artes Plásticas na Universidade Federal de Goiás e o Concurso Nacional de Artes Plásticas da Caixego. Também como parte deste novo cenário, tem-se a atuação da marchand Célia Câmara, na valorização da arte produzida em Goiás e no surgimento de novos artistas e no reconhecimento daqueles que até então eram desconhecidos. Todo esse trabalho elevou o Estado para além do Paranaíba.

Não se trata de um panorama histórico, nem de uma pesquisa acadêmica sobre a Arte Goiana, mas sim a tentativa de pontuar artistas e trabalhos que considero relevantes. Logo, citar nomes é um risco, mas também não fazê-lo é se omitir.





Dalton Paula
2ª Gemelar
Óleo sobre tela
50 x 60 cm
2008


Dalton Paula
Comunhão
Óleo sobre tela  e folhas de prata
70 x 90 cm
2009
Foto: François Calil






Dalton Paula
Reisado
Óleo sobre tela
70 x 90 cm
2009
Foto: François Calil




Dalton Paula
A Farmácia
Óleo sobre tela
80 x 120 cm
2009
Foto: François Calil